quinta-feira, 28 de abril de 2011

CHICOS DO BRASIL

Desafiou o preconceito, o sistema, a ordem
De cor, de gênero, de gosto
A preta ficou branca
A branca ficou preta

É da Silva Fidalga
É Gonzaga do Povo

Desafiou o preconceito, o sistema, a ordem
De religião, de terras, de poder
Um deu a vida pela causa
O outro deu a causa pela vida

É Xavier da luz
É Mendes da natureza

Desafiou o preconceito, o sistema, a ordem
Da mídia, do cálice
Enfiou a parabólica na lama
Girou com força a roda viva
Acordou as alfaias rachando os batentes armoriais
Encheu  nosso cotidiano de construções proparoxítonas

É Science do Mangue
É de Holanda brasileiro
Desafiou o preconceito, o sistema, a ordem
Do belo, do siso, do centro
César-Gênio das letras
Anysio-Gênio do riso

São todos chicos
São oito, são muitos
São todos
Todos Chicos brasileiros

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sus Pies

Por onde andaram
Esses pés?
Que terras percorreram?
Gastaram a própria sola?

Pisaram nuvens, flores e terra molhada
E também espinhos e pedras
Transpuseram rios sem pontes
Te levaram a outros horizontes

Um após o outro,
Numa cadência lenta e firme
De quem sabe aonde não quer ir
Eles te trouxeram até aqui

Por que demoraram tanto?
Eu esperaria mais!

Diante de mim
Eles se apresentam;
Agora somos quatro
A errar por novas veredas

Comungando direção e sentido,
Eles denotam perfeitas condições
De seguir, sempre juntos,
Essa longa caminhada que chamam de vida

sábado, 16 de abril de 2011

Enrolados

Enrolados, como os destinos dos dois
Não difíceis nem complicados
Mas entrelaçados, envolvidos
Em aneis graciosos

Enrolados ao ponto de envolvê-lo;
Seduzido se deixou ficar
Não lutou - era inútil resistir
Não esboçou qualquer reação

É doce essa ondulada prisão
Não tem paredes nem grades
Nem carcereiros ou cadeados
Só fios e cachos vermelhos

Vermelho é também o beijo
Os olhos, os dias
Como fins de tarde intermináveis
Olhados do mar para a praia vazia

É desse paraíso
E de sua deliciosa companhia
Que ele lembra quando os vê enrolados
Em seu peito feliz

Lembranças de mãe

O garoto viu um gibi
Encantou-se com aqueles desenhos
E ainda mais com os balõezinhos
Que continham um código indecifrável

Me pedia
Noite e dia
Para que lhe inserisse nesse universo
Mágico, plural, diverso

Depois que lhe mostrei o caminho,
Ensinando até onde sabia
Depois querendo ver, quando já não mais sabia,
Abraçou o mundo com os olhos

Quis ser médico, militar, engenheiro
Tudo ao mesmo tempo
Enfrentou desilusões e desenganos
Que o deixaram ainda maior

Hoje acho ele enorme
Apesar de ainda ter olhos curiosos que
Agora tem vidros a sua frente
Para dar conta das intermináveis leituras que faz

Tenho medo que fique louco!
Mas me orgulho de sua loucura e ousadia

Não sei aonde vai
Sei que para longe
Tão alto (ou mais) quanto posso
Desejar e imaginar

terça-feira, 5 de abril de 2011

Visita ao Museu da Realeza Democrática

O céu é do condor
Como a praça,
Ainda que cercada,
É do povo,

Mas o campo é das princesas.

Rico palácio
Onde morreu o interventor
E estiveram um velho vivo
E um jovem morto

Três tiranos

Lembrados pela memória do povo
E louvados por seu esquecimento
Como esquecida foi sua esperança
Reclusa, ilhada na ilha, distante

Uma placa atesta sua luta sem lembrar o seu retorno

Nesse museu da realeza democrática
O governador é ser de outro mundo – quase rei
Para ocupar sua cadeira não basta eleição!
“É preciso muito estudo”

Ou nascer de sangue e olho azul
Delicados cristais e móveis coloniais,
Registros materiais
Da vida de luxo, riqueza e ostentação
Da saudosa monarquia

Até os outrora súditos implicitamente denotam sua nostalgia

Inconscientemente somo todos monarquistas,
O rei do futebol, do rock, da coxinha
Não seriam um indício dessa nossa natureza
Viúva do silêncio e do chicote?

Guilhotina a esses mitos e viva o povo brasileiro!